terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Autismo e a Ditadura da Normalidade





Os  que se pensam Iguais ostentando o rótulo de “Normais” tem horror a ver sua padronização resultante de sua busca por similaridades no espelho que nós Autistas mostramos a eles. Faz parte da Natureza deles tentar encontrar a si nos outros e encontrar pontos  em comum buscando identificarem-se uns com os outros no procedimento da interação social. Isto ocorre por que existe uma crença há muito arraigada, de que só é possível a interação social se ambas as partes forem semelhantes entre si e  que a cooperação social só se faz mediante o corte das diferenças buscando alcançar um padrão comum teórico-é a busca da “Normalidade”.Assim, o chamado “consenso” nada mais é do queo brutal corte das aparas e arestas para aparências , opiniões, pontos de vista, para o bem da concordância, quanto mais iguais forem, pensam eles, mais eficientes ficam as relações sociais e a própria  Sociedade.
E por que buscam uma igualdade?Pelo mesmo motivo que os Autistas buscam seu Mundo Interno de Fantasia: Previsibilidade!
A Previsibilidade é segura, é confortável, é cômoda, então, se um “Normal” encontra outro “Normal” e o segundo “Normal” age , reage e se comporta como espera o outro “Normal” (e como esperam todos os demais “Normais” também), ou seja, de forma considerada pelos “Normais” como “Normal”, sabe-se exatamente o que esperar dele e pode se planejar a reação do primeiro do jeitinho que a Sociedade espera que ele reaja.Isto dá aos dois, e a todo o resto, uma sensação de segurança, de saber até onde se pode e deve ir, com o conforto da certeza de que não terá surpresas nem improvisos. Até parece que estou falando de Autistas, não?Mas estou falando aqui de normotípicos!
Não são então parecidos, cada um a sua maneira? São, claro que são, oras, tudo isto é naturalmente...Humano !
Porém, esta similaridade, esta padronização, é uma ilusão, é uma busca impossível de ser alcançada, pois o Ser Humano é extremamente Diverso em sua Natureza.
E os Autistas, também tem sua busca? Tem ! Mas, embora possa se assemelhar na questão da busca de uma Identidade, é diferente, por que é uma busca pelo Diferente, ou melhor, é mais complexo que isto, é buscar nas Diferenças suas semelhanças.Parece ilógico, sem sentido, incoerente, non sense talvez? Não é uma busca para encontrar a si no outro, mas encontrar no outro uma identificação com uma Natureza em comum, a Natureza Autística, que, paradoxalmente, embora se expresse e se mostra com tamanha diversidade e variedade, existe algo nela, subjetivo mas intrínseco, que os une, com a qual se identificam e pela qual sabem que não estão lidando com um “normal”, mas com outro Autista- e este algo mais, este detalhe, varia intensamente de indiivíduo para indivíduo, mas de algum modo, nós sabemos , sentimos, quem é Autista e quem não é.
As pessoas  não autistas estão tão acostumadas a serem “normais” (e “normalizadas” pelas demais) , que isto para elas é normal, foram  assim condicionadas pela sociedade.
Então não entendem nosso orgulho de sermos diferentes, e eles nos chamam de normais achando que é elogio, por entre eles e no meio deles é elogio mesmo.
Mas não para nós, para nós é ofensa !
Na verdade não entra na cabeça deles como alguém pode achar ofensa ser chamado de normal, pois eles tentam inutilmente encontrar em nós mais um deles, inclusive porque a busca deles tem como componentes importantes a vaidade e o ego- e a nossa , não. Não procuramos as pessoas para nos compararmos a elas afim de satisfazer o ego e a vaidade. Não que não tenhamos , claro que temos, somos humanos como todas as outras pessoas, mas para nós não tem a mesma dimensão de importância, embora isto também varie muito.
Estão  então os normotípicos acostumados a se verem refletidos uns nos outros,só não somos reflexos deles, não existimos para refletir de volta a eles o ego deles, nem para sermos comparados com eles.
O que os deixa com raiva é que refletimos a similaridade deles e não um reflexo de como se interpretam; e mais, subversão das subversões: mostramos a eles que é possível ser diferente! E que é possível um relacionamento harmonioso entre diferentes sem necessitar de cortar aparas, de moldagens, sem precisar ser colocado e se encaixar dentro de fôrmas sociais para a interação dar certo. Parece paradoxal, inconcebível, mas é possível a cooperação sem um consenso imposto ao qual se adaptar!
Isto rompe totalmente com a mentalidade de culto as similaridades, expõe a Ditadura da Normalidade a quem eles servem, mostra como os mecanismos sociais ralmente funcional e-mais temido- mostra que eles não funcionam como se fora alardeado, e que este funcionamento pode ser bem cruel e nada belo, revelando os sacrifícios pessoais que foram necessários para se chegar aos resultados desejados pela Sociedade, e que nem sempre coincide com as necessidades pessoais de cada pessoa. Aparar arestas, cortar rebarbas, se anular ou mesmo se rejeitar, mas mal, muito mal, e pode-se estar sendo feliz achando que , apesar de tudo, se está sendo feliz. Amarga Ilusão !
Então, sempre existem normotípicos que tentam nos enquadrar tentando nos convencer que sejamos iguais a eles nos chamando de normais, fingindo que não percebem nossa diferença, mas percebem- e sempre há os que a invejam!
Tudo isto me faz lembrar uma cena que o grande Joseph Campell descreveu em sua série “O Poder do Mito”, em que ele presenciou uma família tendo uma refeição em um restaurante, e  em que o pai disse para a mãe  na presença do filho:
“-Eu sofri muitíssimo no meu passado, na minha vida, do mesmo jeito que meu pai sofreu,, meu avô, meu bisavô, por que só meu filho não pode passar pelo mesmo que nós passamos?Por que só ele tem de ser diferente de todos nós, se tudo o que passei foi passado de geração em geração!Eu sou como meu pai e ele tem de ser como eu sou !Por que eu olho para ele e vejo a mim como criança ! Assim como meu pai me viu, meu avô viu meu pai, e assim por diante...Então, eu não entendo, por que ele não pode ser como eu?”
Isto diz muito de como muitos normotípicos nos veem...

Cristiano Camargo

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A delicada questão da Não Aceitação de Autistas pelos Pais e pelas Mães

A delicada questão da Não Aceitação do Autismo pelos Pais e pelas Mães

Ser Autista é uma Natureza de Ser, no entanto, pouca gente aceita/entende  isto. Porém, hoje o assunto é a questão da  grande dificuldade que muitos pais e muitas mães tem de aceitar que seu filho ou sua filha seja Autista.Preconceito, dirão uns. Intolerãncia, dirão outros. Ignorância/desinformação, mais outros poderão dizer ainda.Independente de o que fulano ou ciclana pensem, de qualquer forma, é uma forma de não  aceitação do Autismo.
Entretanto,existe um  lado desta questão que é  justamente a de uma forma mais ou menos velada de não -aceitação. Muitos pais e mães não querem que seu filho ou sua filha sejam Autistas por que acham que  ser Autista seja ruim, este é o ponto  eles/elas  acham ruim mesmo sem nunca terem sido  Autistas(nem poderiam ser, nem nunca serão, pq não é esta a Natureza de Ser deles).O outro lado é o de pais e mães superprotetores(as), que querem proteger seu filho/sua filha de sofrer preconceitos, pois acham que ele/ela sofrerá e terá de enfrentar muitos preconceitos se as pessoas souberem que ele/ela é Autista. Mas a questão é mais complexa que isto, por que envolve o ego e a vaidade do pai ou da mãe do/da Autista também,está se abordando agora a Questão da Comparação Social, que muitos pais e muitas mães de Autistas sofrem em seus relacionamentos com outros neurotípicos, ou seja, parentada, colegas de trabalho, amigos, profissionais,etc.; assim muitos pais e muitas mães não querem que o/a filho(a) dele/dela seja confirmado(a) Autista ou aceitar que ele/ela seja não apenas por que acham que o/a filho(a) será mal visto(a) na sociedade(como um doente coitadinho, pois é desta maneira absurda que a Sociedade vê os Autistas) , mas por que ele/ela (me refiro aos pais e 'as mães) serão mal vistos(as) pela sociedade, e poderão sofrer preconceitos cheios de dedos apontados para eles,  os culpabilizando por "terem deixado o/a filho(a) dele/dela  virar Autista", e cobrando "por que não tomaram uma atitude antes", pressões típicas de sociedades ignorantes e preconceituosas, que forjaram pessoas idem, que não admitem nenhuma diversidade, que nunca passaram por enfrentar um terapeuta geladeira e nem tem idéia do que seja ser mãe ou pai de Autista, pois nunca tiveram filhos Autistas na vida, como podem julgar, condenar, culpar, apontar?
.O pavor destes e destas  pais e mães de Autistas de passarem por estas situações, e ainda correrem o risco de perderem empregos, terem carreiras destruídas, serem expulsos dos círculos sociais junto com seus filhos e serem humilhados ( medo de que sejam considerados doentes por terem filhos que a sociedade considera como se fossem doentes)reforça o preconceito deles mais ainda.Esta questão de ego e vaidade, aliás, está bem mais ligada a pais do que mães, sobretudo a pais que abandonam esposas e casamento, ou pedem divórico só por que descobriram que o filho é Autista. E aí, descobre-se o óbvio: a pessoa achar que o/a filho(a) ser Autista seja ruim, é apenas a ponta do iceberg.Abaixo, submerso , escondido, vem  o medo de eles receberem um carimbo na testa escrito "pai/mãe de Autista" e sobrevirem as consequencias, principalmente sociais disto, e, ainda mais abaixo, e mais escondidos, a insegurança  de  "virem a  ter mais filhos Autistas futuramente". Inclusive muitos casais param de ter filhos por causa deste receio e terem de enfrentar estes medos e situações tudo de novoTudo isto, este iceberg todo de insensibilidade e intolerãncia gélidas, é feito de pura ignorãncia e desinformação maciças, num conservadorismo irracional baseado em estereótipos caricatos  de filmes que fazem idéias bem falsas e/ou falam mal 'a beça do Autismo, fora os estereótipos em novelas, programas humorísticos, etc, que pouco tem a ver com os/as Autistas reais.Mas esta não é a única razão: muitos pais e mães,especialmente as mães, eu diria, sofrem verdadeiros massacres e cenas de terror nas mãos de terapeutas -geladeira que fazem do Autismo um verdadeiro filme de terror tipo Poltergeist,arrasam com a imagem opública do Autismo e dos Autistas, julgam e condenam Autistas e Autismo ao inferno eterno  do sofrimento e dor, dacondenação 'a supressão total de sociabilidade, de fala, de felicidade.Enfim, tais monstros destroem esperanças ao invés de criá-las ( o que seria o certo) e incutem nas cabeças delas uma mentalidade patologizante, reducionista , espectrista e infantilizadora, com a clara intenção de tornar os filhos e as filhas delas em consumidores(as) vorazes de remédios psiquiátricos, alguns deles viciantes,e mantê-las eternamente dependentes dos pais e da sociedade, infantilizadas e com seu desenvolvimento imobilizado por décadas, de propósito e com prazer, e alguns destes terapeutas geladeiras tem verdadeiro prazer em ver o sofrimento das mães,e a intenção deles é esta também, e muitas saem mesmo destruídas, num luto que parece infinito e numa desorientação total, sobretudo com tanta informação conflitante e também, com tanto charlatão vendendo "soluções mágicas" perigosas e até mortais.É de todo este contexto que nasce o ódio ao Autismo, a culpabilização do Autismo, a não aceitação do Autismo:ter sido mal orientada por um mau profissional.
Eis que pois, pais e mães não tem qualquer culpa neste tipo de atitude , mas certos profissionais, e a literatura científica patologizante  sim tem (muita ) culpa nisto.
Porém, se existem tantas (des)informações equivocadas sobre Autismo em que as pessoas acabam acreditando por causa da aura mágica de "Dr./Dra.", estas são espalhadas , em muitos casos por pessoas que querem uma Supremacia Neurotípica, uma atitude eugenista  e higienista, que visa eliminar as Diversidades e as Diferentes Naturezas de Ser da Humanidade, do Planeta.
Diversidades existem para serem aceitas, respeitadas,acolhidas dentro da Sociedade.Pois Padrões não são só uma forma de higienizar no sentido mais eugenista da coisa,são uma forma de oprimir, acorrentar, e uma forma de escravizar e prender Naturezas de Ser/Diversidades em jaulas ditatoriais de masmorras falsamente morais, para que a Humanidade continue nas trevas da Massificação, tentando enquadrá-las em fôrmas sociais que são na verdade prisões.

Cristiano Camargo

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A falência do Modelo Atual de Inclusão Escolar de Autistas



 
É cada vez mais notória a falência do modelo atual  de Inclusão Escolar de Autistas no Brasil, e esta se deve a causas multifatoriais, impossível eleger uma única causa.
Este fato, no entanto , tem levado Ativistas Autistas pelo Autismo, Alunos Autistas e seus pais a um descrédito, uma descrença na própria existência ou na própria viabilidade da implantação de uma Política  de Modelo de Inclusão Escolar de Autistas no país, e levando os(as) poucos(as) Professores(as) Inclusivos(as) brasileiros(as) ao desânimo, pela desmoralização desta causa que os fatos tem imposto.
Então, onde foi que erramos?
Poderia-se começar, por exemplo, pela exclusão total dos Ativistas Autistas pelo Autismo das negociações e redação das leis  que regem o Modelo Atual de Inclusão, onde alguns dos/das principais envolvidos (as) -(que personificam in loco a matéria em si  por serem eles/elas mesmos(as) Autistas)- consultando-se apenas pais, terapeutas e educadores(nem sempre inclusivos).
Poderia-se continuar pela eleição de um Modelo autoritário, sem um trabalho de conscientização sim, mas também poderíamos estender para a questão de se incluir um Modelo de Inclusão dentro de um Modelo de Educação já naturalmente exclusivo, inclusive ‘a força.
Não nos iludamos, porém: o sistema escolar brasileiro nunca foi inclusivo, nem nunca foi concebido para tal, pelo contrário, é um Modelo de Educação exclusivista, excludente, feito para ser padronizado, como se todos os alunos e todas as alunas fossem iguais,gerido por uma mentalidade de indústria, em que pensar, conscientizar, ter opinião própria é uma perigosa subversão a ser combatida. É um modelo pensado de propósito para manter tabus, desigualdades, privilégios de classe, gerar força de trabalho não pensante e facilmente manobrável e manipulável, uma “Filosofia de Curral”.
Na indústria, na linha de produção, se algo  é ligeiramente diferente, tem defeito e é descartado sem dó nem piedade.
Na escola, a Diferença é vista como um Defeito a ser sanado, ou se corrige e torna o/a aluno(a) igualzinho(a) aos demais, ou se descarta, expulsando, “convidando a sair”(tem coisa mais hipócrita do que isto?), ou segregando e isolando quem é diferente.
E tem outra ferramenta  também: o Bullying. Por que o Bullyng é veladamente,secretamente(muitas vezes até explicitamente) admitido e até incentivado, e por que ele é incentivado por tantos pais, e por que as escolas fazem vista grossa e muitas vezes a vítima é que é punida?
Por que o Modelo Excludente está perpetuado nas famílias, cujos pais foram formados antes em escolas de mentalidade excludentes e foram condicionados a manter esta padronização, que as escolas procuram perpetuar de geração em geração.
E por que para as escolas, em sua mentalidade conservadora, comodista e oportunista, interessa manter este esquema , este modelo excludente. A Exclusão não é apenas parte integrante das escolas e do Sistema de Ensino Brasileiro, ela está profundamente embrenhada em suas células como um câncer, mas não um câncer destrutivo, mas simbiótico- eis que a Zona de Conforto é muito cômoda e atraente, então, por que mudar?
Por que tentar incluir os Diferentes se todos os Iguais estão felizes em sua confortável e lucrativa padronização?
Bom, isto é apenas a superfície, pois as crianças são parte do modelo, mas são também as vítimas deles, mesmo as crianças neurotípicas, já que, assim como não existe um Autista igual ao outro, não existe um neurotípico igual ao outro e o por quê disto é muito simples: por que ambos fazem parte da mesma diversidade natural humana. Assim, muitos alunos neurotípicos (incluídos) também sofrem muito com o atual Sistema Escolar, que ditatorialmente lhes exige que se adaptem ao Sistema, sem que o próprio Sistema jamais cogite se adaptar a eles.
Mas é com Autistas , por conta de suas Diferenças, diversidades e necessidades específicas, que esta conjuntura totalitária e desfavorável produz seus atritos mais graves. Autistas não costumam ser dóceis amestrados a serem manipulados e tendo suas arestas cortadas para caber nas Fôrmas Sociais. Autistas não são moldáveis, nem se moldam nestas fôrmas. Sempre irão se rebelas e isto vem de sua própria Natureza Autística.
Quando uma criança autista chora , faz birra e esperneia para não ir na escola, na verdade ela está gritando, querendo dizer:
 -Eu não quero ser moldada ! Eu não quero ser enquadrada ! Eu não quero ser igual aos outros !Eu quero ser eu mesma !
E ser si mesmo é o ápice da subversão e do perigo para o Atual Modelo Escolar Atual, para o próprio Sistema Escolar Inteiro.
Então não adianta querer enfiar goela abaixo uma Inclusão num sistema teimosamente exclusivo por natureza, sem primeiro jogar este modelo antigo fora e instituir um novo Modelo Escolar, um novo  Sistema Escolar inteiro, um novo modelo de Sistema Escolar Inclusivo, pensado desde o início para ser inclusivo, com uma mentalidade muito mais sensível, humanista e sobretudo, personalizável, focado nas Diversidades.
Um novo Modelo de Inclusão só se encaixará  direito em um Sistema Educacional já inclusivo.Ou este modelo serpá rejeitado e excluído e é o que acontece hoje.
É preciso mudar a mentalidade do “O Aluno é que se deve adaptar ao Sistema” para “O Sistema que deve se adaptar a cada Aluno”.Só mesmo levando em conta as diferenças e necessidades específicas de cada um teremos um ensino inclusivo, democrático, eficiente, que forme pessoas com visão crítica da Realidade e com opinião própria e cujas habilidades e qualidades específicas possam ser usadas em benefício a eles mesmos e para toda a Sociedade.
Por que tendo um Sistema Educacional inteiro inclusivo, formaremos novas gerações de Sociedades Inclusivas e Diversas !
Descobriremos então que o problema todo não eram os Alunos Autistas (ou não) que eram o problema, e que o problema não era eles não se adaptarem ao Sistema, ‘a Escola- o problema na verdade era o Sistema, a Escola,  não se adaptar e não reconhecer a Diversidade dos Alunos !

Cristiano Camargo


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Autismo: Por que a repetição de movimentos faz bem?



Autismo: Porque a repetição de movimentos faz bem?

Outro dia eu estava assistindo a um vídeo de um teste de carros, onde a música que embalava o teste me atraiu, então, com um aplicativo próprio, extraí a música do vídeo e a baixei para meu computador. Era uma música instrumental, com solos de guitarra, cuja melodia, simples e de poucos acordes, era extremamente repetitiva, mas ainda assim me pareceu extremamente agradável, então, comecei mais tarde a refletir sobre ela do por que ela me dava tanto prazer em escutar.
Esta reflexão me remeteu a uma velha questão, cujas respostas, ao longo do tempo tenho elaborado e re-elaborado: Por que Autistas gostam tanto de movimentos repetitivos? E não apenas movimentos corporais deles, mas adoram de paixão tudo o que se repete infinitamente!
Perguntada, uma criança autista uma vez respondeu, em sua simplicidade infantil
-Por que gosto !       
Mas...por quê gosta? E por que este gosto e este prazer se estendem até a vida adulta?
Por que está profundamente enraizado não somente em nós Autistas, mas em todas as pessoas!
Quando um bebê chora, qual a primeira reação de uma mãe?
O embala. E como é este embalo?
Com movimentos repetitivos, as mesmas falas, doces, carinhosas, macias...previsíveis!
É, previsíveis ! A previsibilidade é a chave da questão !
A repetição acalma, tranquiliza e devolve a nosso mundo  o conforto e bem estar da previsibilidade , num mundo real imprevisível e intempestivo, é um refúgio contra o Inesperado, uma  auto- defesa contra o caos temerário da imprevisibilidade!
Crianças não-autistas com o tempo vão absorvendo a cultura normotípica de que repetições sejam chatas, maçantes, inatrativas.
Autistas, porém, não compartilham disto. E não o fazem por que, em princípio, ao contrário das crianças não-Autistas, em que seu Mundo Interno de Fantasias é muito simplificado e só dura durante a infância, nos Autistas, o Mundo Interno de Fantasias é mantido intacto por toda a Vida, é complexo, sofisticado, e vai se transformando ao longo da vida, de um Mundo singelo e ingênuo infantil, para um Mundo complexo e cheio de meta-metáforas, meta-cognições, meta-personagens (personagens-espelho análogos aos reais , mas construídos com interpretação própria da realidade), e até meta-realidades e muita contemplação, adulto.
Assim, Autistas, acostumados e bem confortados em sua conveniente e benévola previsibilidade de seus Mundos e seus personagens, logo aprendem sozinhos a rejeitarem a instrução-padrão normotípica de que a repetição seja monótona, chata, para passar a ver na repetição um prazer, um conforto, a agradabilidade e benevolência tranquilizante  da previsibilidade contida em toda repetição.

Ora, se algo se repete, sabemos exatamente tudo o que vai acontecer, e isto nos tranquiliza: não haverá nenhum susto, nenhum perigo, nenhuma mudança repentina, nada de inesperado para o qual tenhamos de reagir de improviso de repente, algo que detestamos ter de fazer (embora até o façamos muito bem, somos muito bons em nos virar sozinhos, ao contrário do que a mentalidade superprotetora pensa) .Esta previsibilidade nos relaxa, nos acalma e nos embala, além de preparam o terreno para que possamos voltar mais uma vez para os prazeres inenarráveis do Mundo Interno de Fantasia. E lá, interpretarmos e refletirmos sobre a Realidade, buscando novas e criativas soluções, pois nós somos pessoas que amam agir planejadamente, com antecedência, analisar primeiro a situação, construir um plano e só então agir, buscando as melhores e mais lógicas alternativas (segundo nossas próprias interpretações, não o senso comum normotípico).
Então, quando um Autista está fazendo movimentos e sons repetitivos, ele está se defendendo, se acalmando, tranquilizando-se a si mesmo, como uma mãe que embala sua criança; como não são, em muitos casos , mais crianças, embalam-se a si mesmos, mas em muitos casos, acredito que remeta ‘a memória psíquica do embalo materno, o Autista assumindo o papel de mãe de si mesmo!
E isto não é algo prejudicial, nem infantilizador, e o Autista não deixa de ser maduro, nem deixa de amadurecer com isto: é algo benéfico, que faz bem,acalma, tranquiliza e o leva a buscar em si mesmo as soluções para o que sente, vê e intempreta.
Então, vamos deixa-los repetir o quanto quiserem, inclusive isto evitará surtos e episódios agressivos desnecessários, afinal, vocês já devem ter notado que tentar sistematicamente interrompê- los é pior e pode levar a surtos, e que depois dos movimentos e sons repetitivos eles sempre ficam mais calmos, tranquilos e felizes.
E ‘a medida que forem se sentindo mais seguros de si e mais a vontade, dominando mais a realidade, esta frequência diminuirá muito , e naturalmente.
Então, meus caros e minhas caras:
Repeti-vos uns aos outros !

Cristiano Camargo